LUPPA LAB celebra cinco anos e reúne mais de 100 participantes em Caxias do Sul (RS)
Foto: Comida do Amanhã/Divulgação
Em um cenário em que garantir o acesso à alimentação adequada se tornou um dos grandes desafios das cidades contemporâneas, experiências consolidadas de combate à fome e promoção da segurança alimentar ganham relevância estratégica. Foi com esse propósito que o Banco de Alimentos do Rio Grande do Sul – Porto Alegre participou da 5ª edição do LUPPA LAB – Laboratório Urbano de Políticas Públicas Alimentares, realizada de 18 a 22 de maio, em Caxias do Sul.
Reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) como o maior laboratório de políticas públicas alimentares do mundo, o encontro reuniu representantes de 46 municípios brasileiros, cerca de 100 gestores públicos e especialistas de diferentes áreas para debater soluções voltadas à construção de sistemas alimentares mais resilientes, sustentáveis e socialmente justos.
Representando a Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais da FIERGS e o Banco de Alimentos RS, participaram da abertura do evento, junto com demais autoridades, o diretor-superintendente dos Bancos Sociais, Vitor Silveira, o gerente operacional Gilmar Ximenes, a nutricionista e gerente do Serviço de Saúde do Banco de Alimentos RS, Adriana Lockmann, e a assistente social Leise Salazar, que continuaram na programação da semana.
O que é o LUPPA LAB
Idealizado pelo Instituto Comida do Amanhã em parceria com o ICLEI Brasil – Rede Global de Governos Locais pela Sustentabilidade, o LUPPA LAB foi criado para apoiar cidades brasileiras na construção de políticas públicas alimentares integradas e de longo prazo.
Durante cinco dias de imersão, os participantes tiveram acesso a oficinas, mentorias, visitas técnicas, dinâmicas colaborativas e debates voltados a temas como governança alimentar, agroecologia, mudanças climáticas, fluxos migratórios, fortalecimento do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) e promoção do Direito Humano à Alimentação Adequada.
A proposta do laboratório é estimular municípios a tratarem a alimentação de forma sistêmica, reconhecendo que a segurança alimentar está diretamente relacionada à saúde, educação, assistência social, desenvolvimento econômico, sustentabilidade ambiental e planejamento urbano.
Banco de Alimentos marca presença com sua experiência
Pioneiro no Brasil, o Banco de Alimentos do RS – Porto Alegre atua há mais de duas décadas no enfrentamento da fome e das desigualdades sociais. Muito além da arrecadação e distribuição de alimentos, a instituição desenvolve ações permanentes voltadas à educação alimentar e nutricional, promoção da saúde e fortalecimento das organizações sociais atendidas.
A participação no LUPPA LAB reforçou o papel da instituição como referência municipal no tema. “Estar presente em espaços de construção de políticas públicas e de promoção dos direitos humanos é uma oportunidade de compartilhar aprendizados, fortalecer redes e contribuir para o avanço da segurança alimentar no país. É muito significativo perceber que a trajetória do Banco de Alimentos do RS – Porto Alegre fortalece outras instituições da sociedade civil com essa mesma causa”, destaca Adriana Lockmann.
Ao longo da programação, as representantes do Banco de Alimentos participaram de debates e trocas de experiências com gestores públicos, pesquisadores e profissionais de diversas regiões do país que têm a segurança alimentar como prioridade em suas agendas de governo.
“Foi extremamente gratificante participar de um espaço que reúne gestores comprometidos com a construção de cidades mais justas e saudáveis. Ver tantos secretários municipais colocando a segurança alimentar entre suas prioridades renova a esperança e demonstra que existe vontade política para desenvolver ações integradas capazes de promover saúde, dignidade e qualidade de vida para a população”, afirma Adriana.
Trabalho intersetorial
Para a assistente social Leise Salazar, um dos principais aprendizados do encontro foi a confirmação de que a segurança alimentar não pode ser tratada como uma responsabilidade isolada de um único setor. Segundo ela, o tema exige uma atuação articulada entre diferentes áreas do conhecimento e da gestão pública.
“A segurança alimentar e nutricional envolve muito mais do que o acesso ao alimento. Ela está relacionada à saúde, assistência social, educação, agricultura, meio ambiente, desenvolvimento econômico e planejamento urbano. Por isso, somente uma atuação intersetorial, com diferentes profissionais trabalhando de forma integrada, é capaz de enfrentar as múltiplas causas da insegurança alimentar e construir soluções duradouras para a população”, destaca.
Caxias do Sul apresenta modelo de referência
Anfitriã do evento, Caxias do Sul apresentou aos participantes diversas iniciativas voltadas à promoção da segurança alimentar e nutricional. O Banco de Alimentos de Caxias do Sul, integrante da Rede de Bancos de Alimentos do Rio Grande do Sul, foi um dos destaques da programação. A unidade adota a metodologia desenvolvida e disseminada pelo Banco de Alimentos do RS – Porto Alegre, adaptando-a às características e necessidades locais.
A experiência demonstra como a replicação de metodologias consolidadas pode fortalecer a segurança alimentar em diferentes territórios, ampliando o impacto social das ações.
Durante a visita técnica, os participantes conheceram o funcionamento do banco instalado junto à Ceasa local. Entre as iniciativas observadas está o sistema de aproveitamento de excedentes comercializados pelos permissionários, que destinam diariamente alimentos para doação a organizações sociais previamente cadastradas. Um cronograma organizado garante que diferentes entidades sejam beneficiadas ao longo da semana.
Visitas técnicas mostram experiências inspiradoras
Com aproximadamente 40 horas de atividades, o LUPPA LAB também promoveu visitas a projetos que demonstram, na prática, diferentes formas de fortalecer sistemas alimentares sustentáveis.
Uma das visitas ocorreu na Cooperativa de Agricultores e Agroindústrias Familiares de Caxias do Sul (CAAF), parceira do Banco de Alimentos local. Os participantes conheceram equipamentos e processos que garantem maior eficiência operacional e segurança sanitária, como sistemas de higienização de caixas utilizadas no transporte de hortifrutigranjeiros.
Outro destaque foi o Instituto Murialdo e seu projeto Jardins Criativos, iniciativa que transforma espaços externos em ambientes de aprendizagem, produção de alimentos e educação ambiental. O projeto integra hortas, jardins comestíveis, compostagem e cultivo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), incentivando a produção de alimentos em pequenos espaços urbanos.
Experiências inovadoras
A programação também abriu espaço para a apresentação de iniciativas inovadoras desenvolvidas em diferentes cidades brasileiras. Entre elas, o Projeto Pila Verde, de Santiago (RS), apresentado pelo prefeito Marcelo Gorski de Matos, o Marcelo Pirú. Criada em 2020, a iniciativa recompensa moradores que realizam corretamente a separação de resíduos orgânicos, convertendo os materiais entregues em uma moeda social utilizada na compra de produtos da agricultura familiar.
Atualmente, o projeto atende cerca de 1.200 domicílios, encaminha aproximadamente 20 toneladas mensais de resíduos para compostagem e fortalece simultaneamente a gestão ambiental e a economia local.
Outra experiência apresentada pela gerente geral de Segurança Alimentar e Nutricional de Recife (PE), Natália Outtes Quirino, foi o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática de Pernambuco (PEAR-PE), que busca preparar o estado para os impactos das mudanças climáticas por meio da participação popular e da construção coletiva de estratégias voltadas à segurança hídrica, biodiversidade, agricultura e segurança alimentar.
Durante o evento, a coordenadora de Redes da Secretaria Municipal de Governança Cidadã e Desenvolvimento Rural de Porto Alegre, Olívia Bertolini, apresentou ações desenvolvidas na capital gaúcha na área de segurança alimentar.
Na sequência, Adriana Lockmann e Leise Salazar compartilharam a experiência do Banco de Alimentos do RS na construção de ações contínuas de promoção da segurança alimentar.
A participação de representantes de cozinhas solidárias de Porto Alegre ampliou os debates e abriu caminho para uma proposta de construção conjunta com o Banco de Alimentos de um manual de atendimento emergencial voltado à segurança alimentar em situações de desastres climáticos e ambientais, tema que ganhou ainda mais relevância após os eventos extremos registrados no Rio Grande do Sul nos últimos anos.
Construindo o futuro das políticas alimentares
Além das atividades formativas, o encontro teve como objetivo construir coletivamente contribuições para a próxima edição dos Cadernos LUPPA, publicação anual que reúne os aprendizados do laboratório e orienta a formulação de políticas públicas alimentares em todo o país.
As discussões também servirão de base para posicionamentos conjuntos das cidades participantes em fóruns internacionais, incluindo conferências ligadas ao clima, biodiversidade e combate à desertificação.
Para a diretora-geral da Secretaria Municipal de Agricultura e Pecuária de Caxias do Sul e presidente do Banco de Alimentos do município, Kalizia Dalla Zen, sediar o encontro representou uma oportunidade de fortalecer a agenda da Segurança Alimentar e Nutricional.
“O que mais motivou foi ver uma equipe engajada, com vontade de mostrar as experiências exitosas que temos no município e fortalecer a Segurança Alimentar e Nutricional. Como legado, fica a importância de trabalhar a SAN em todos os âmbitos, especialmente por meio da intersetorialidade. Ser anfitrião de um evento desse porte é muito gratificante”, afirma.